segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Vinte e Nove de Fevereiro.

Ontem comecei o dia com um transporte de uma pessoa saudável. Outros não poderão dizer o mesmo. Depois dirigi-me a uma filial credenciada de uma empresa de telecomunicações para resolver dois pequenos problemas. Resulta que "estavam sem sistema". Eu, que vivo sem sistema desde que me lembro, perguntei-lhes porque estavam abertos. É curioso como estas pequenas contrariedades me transtornam. Recuperei as minhas funções de transporte e, ganhando o tempo devido ao almoçar no carro, e porque eu queria ver a neve na Serra da Freita, consegui passar a Farrapa às duas da tarde e começar a subir para a dita Serra logo depois. ali onde rodamos à esquerda e logo depois um desvio para a direita começa a subir a sério. Eram já uns quantos carros a subir em fila mas nada de especial. Na Farrapa dois restaurantes tinham estacionamento à porta. Pensei para mim que à volta isso podia ser um problema. A subida termina com o acesso ao planalto da Freita, onde farrapos de neve se distribuíam por todo o lado, a contento das gentes que por aqui e ali estacionavam. Os pontos mais altos estavam completamente cobertos de neve. A fila de carros agora já era compacta. Parei onde consegui para não atrapalhar a avidez alheia de diversão e eu e a minha filha fomos enterrar os pés na neve. Divertimo-nos assim aproximadamente vinte minutos. Depois voltei a entrar na fila para, com a ajuda da Protecção Civil, fazer inversão de marcha no Merujal. Nunca tinha descido da Serra da Freita pelo caminho de subida. Habitualmente seguimos por ela adentro até terminar a norte e descer para Arouca. A descida em direcção - outra vez - para a Farrapa é deslumbrante. Lá em baixo era verde e havia sol. Com a neve ainda à minha direita parecia estar a conduzir entre dois mundos. Num dia mais aberto ver-se-á o mar. Descia cinquenta minutos depois de ter subido. Constatei, assim por largo, uma fila de automóveis de uns cinco quilómetros a querer subir. Não havia neve que chegasse para esta gente toda. Claro que o estacionamento nos restaurantes da Farrapa atrapalhou o desaguar do trânsito. Eu bem sabia. Utilizei para voltar - como tinha utilizado antes em sentido contrário - aquela famosa autoestrada que desnecessariamente liga Gaia a Oliveira de Azeméis. Que me permitiu estar a entrar na cidade do Porto vinte minutos para as quatro. Não percebi bem de que lado do Parque da Cidade tinha que fazer a próxima entrega e este não entendimento provocou alguma distimia. É curioso como estas pequenas contrariedades me transtornam. Meia hora depois das quatro estava em casa e adormeci. Duas horas depois procedi a nova recolha e o novo destino foi Ovar. Ovar estava a sobreviver surpreendentemente bem ao frio. A cadela que dirige os destinos de Ovar ficou sem assunto de conversa ao fim de quarenta e cinco minutos de carinho mútuo. O jantar foi de uma abundância superlativa, embora o arroz, como sempre, estivesse frio. Não consegui - não conseguimos - evitar o visionamento de um canal televisivo generalista onde habilidades eram travestidas como arte. A retirada foi antecipada e estratégica. No Porto o SyFy terminava a "Idade do Gelo" e noutro canal corria "The Americans". Deitei-me, tentei folhear "Alexis" de Yourcenar mas não consegui.

Duas perguntas acompanharam-me durante todo o dia. As respostas não tiveram a decência de comparecer ao encontro.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Vinte e Cinco de Fevereiro.

Ontem aconteceu uma coisa engraçada. Enquanto esperava no corredor da Estomatologia que a minha filha fosse agraciada com a superior atenção do seu Estomatologista, meu antigo Professor, comecou a nevar. Entenda-se que aquilo que eu chamo nevar, e que efectivamente aconteceu, foi apenas uns fiapos de neve que desceram do céu durante uns meros cinco minutos e que mal tocavam no chão desfaziam.-se em água. O Hospital de que falo fica numa zona alta e que já foi desabrigada. E não é a primeira vez que nele vejo nevar: é a segunda. Foram escassos minutos mas serviram para que o meu antigo Professor e Amigo brincasse: "Está a ver, este serviço é tão bom que até tem efeitos especiais, contratados de propósito para o dia em que a sua filha nos visita!".

E talvez seja assim a felicidade, cinco minutos.

Hoje, porém, lembrei-me de outra coisa, neste caso de um livro, e um livro que já li mais do que uma vez, "O Raio Verde", de Júlio Verne. É uma história de amor e gira em torno de um muito improvável "raio verde" que - só em circunstâncias muito especiais - o Sol emite logo antes de se esconder de vez para lá do mar, no crepúsculo. O "raio verde", uma improbabilidade da física, servirá de testemunha abonatória para um amor maior do que o tempo, uma improbabilidade da química. Portanto, é talvez possível que a felicidade possa durar mais do que cinco minutos. Em alguns casos, pelo menos.

O que sim tenho dúvidas é se mereço, sendo eu um fugidio e instável elemento desta má espécie humana, as palavras que hoje ouvi.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Vinte e Três de Fevereiro.

É curioso como construímos uma memória à volta de um filme que depois, ao revê-lo, não vamos efectivamente encontrar.
Ontem foi um dia cruel, porque nulo. Decidi à noite ver uma das últimas obras de Elia Kazan, "The Arrangement". Tinha uma memória confusa de um Kirk Douglas e uma Faye Daunaway a passear nihilisticamente à beira-mar num apartamento em construção. Não havia nenhum apartamento em construção em duas horas de filme. À beira-mar havia pedaços de filme com uma seminudez atípica - porque em Elia Kazan. Numa espécie de aggiornamento. E, como alternativa, junto a um pavilhão já construído Kirk Douglas passeia mas com a esposa eternamente humilhada, uma Deborah Kerr a quem ele não pára de maltratar, chegando ao ponto de a insultar dizendo-a mais bonita do que! Meu Deus! Duas horas de um angustiado, autobiográfico e aborrecido filme. Safava-se a Faye Dunaway, claro! Vinte e sete anos de Faye Dunaway!


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Dezoito de Fevereiro.

Estou a ver snooker na televisão. Ontem de manhã vi como Ronnie O'Sullivan despachava Tian Pengfei com 4-0, breaks de 110, 90, 102 e 112. O Ronnie é um pouco vaidoso e, para manter a franja do penteado mas sem que esta lhe atrapalhe o trabalhinho, jogou com um gancho no cabelo. 
Já passei a Marisa Monte na música do carro, o que é bom.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Quinze de Fevereiro.

Ontem foi um dia muito interessante. Fui almoçar a um indiano. Voltei para casa. Semi-deitei-me no peludo que reveste o chão enquanto a minha filha completava um trabalho escolar. Decidi acabar de ler um livro de Alvaro Cunqueiro chamado o "O Ano do Cometa". Este curioso livro de um dos mais conhecidos escritores galegos mistura livremente realidade e fantasia, com absoluta preferência por esta. Está maravilhosamente bem escrito. De vez em quando doia-me o rabo. E às vezes adormecia. Talvez estas pequenas realidades tenham-me indisposto contra o livro de Cunqueiro pois acabei por não o acabar. Ao fim da tarde fomos encadernar o trabalho escolar a um shopping e depois rumámos para Ovar. Parte de Ovar estava às escuras, nomeadamente a parte correspondente às ruas José Falcão e Alexandre Herculano e adjacentes para ocidente e norte. O resto de Ovar tinha a sua iluminação normal, confirmámos. A ausência de iluminação pública e nas casas em parte de um vila dá-lhe um aspecto dicotómico. Em casa dos meus pais acabava-se o - nosso - jantar à luz da vela. Esta ausência de luz é sem apelo: não há gambiarra que se estenda de um lado para o outro a paliar a escuridão. A luz ou tem-se ou não se tem. Vinte minutos depois veio - voltou. Ainda fez uma ameaça de voltar a desaparecer - a luz -  mas foram só dois minutos de suspense. Imagino que esteve uma equipa num posto transformador qualquer a remediar e resolver a situação. E resolveu.

A luz, e outras coisas, é isto: ou tem-se ou não se tem.

PS.: eu sei que "tem-se" soa merdoso mas...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Doze de Fevereiro

Ontem fui aos correios mandar uma carta. Que o não era mas dois documentos que me tinham sido pedidos para saldar uma dívida antiga. De onde vivo até aos correios de Pedro Hispano é um pequeno passeio. Não chovia.
 
Os correios têm agora esta coisa de venderem livros e discos e cautelas. A coisa dos livros é interessante pois permite, enquanto se espera, ir folheando alguma coisa. Permite sobretudo confirmar que aqueles autores comerciais de que tanto não gostamos e que muito maldizemos são efectivamente maus. Lê-se duas ou três páginas e já está. São uma merda, sim senhor. Um senhor à minha frente lia um livro de divulgação sobre os dinossauros.
 
À volta meti por um caminho diferente e, mais uma vez, não entendo o que faz um monumento à violoncelista Guilhermina Suggia num relvado impecável num condomínio fechado. Podemos admirar o monumento de longe, por entre o gradeamento. Guilhermina Suggia está entre as duas dúzias de portuenses mais ilustres que o tempo produziu. Merecia mais e que fosse num espaço PÚBLICO.
 
Voltei para casa. Gostava também que os jovens desta minha cidade não cuspissem tanto para o chão.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Cinco de Fevereiro.

Levamos, amigo, décadas a falar e a não falar do mesmo. O mesmo tom, as mesmas hesitações, o mesmo entusiasmo, às vezes suicidário. O teu cansaço não é o meu cansaço. A tua derrota não é a minha. Mas não mudaste. Não mudámos. E isto é a primeira e a última, a perene vitória. Embora, hoje por hoje, me pareça que dás mais atenção ao activador do plasminogénio tecidular.