domingo, 27 de março de 2016

Vinte e Sete de Março.

Não me levanto de noite para urinar e o jacto é-me fácil. Não faço nenhuma medicação diária e ainda não comecei a fazer a contagem regressiva dos que caminham, correm, doam o seu dinheiro para a causa num ginásio qualquer. Como sem cuidado excessivo. Ao fim de dez anos de um horrível percalço, voltei a viver desidratado. Leio bem sem a ajuda de óculos. O braço afasto um pouco mas ainda e só na justa medida. Escrevo isto num telemóvel que seguro com uma só mão, usando sem erro o polegar. Ganhei uma pequena barriga, eu sei. Tenho, porém, mais gases.

Sei o mês em que estou mas também a idade que tenho.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Vinte e Seis de Março.

Segunda-feira foi um dia razoável. Sustentou-o um doente que me ofereceu a versão contada pela sua mãe do famoso "milagre do sol", que ela terá presenciado. 
Antes de Fátima havia a Cova da Iria. A mãe do meu doente é da Cova da Iria. E aqui vai:


O sol era um sol normal. E depois escureceu. Havia uma figura que se achou que era Nossa Senhora. O escurecer pode ter sido nuvens. E depois veio um brilho enorme e flamejante e começaram a cair pétalas de flores e começou toda a gente a apanhar as pétalas e no regaço as pétalas desfaziam-se em nada, depois acabou tudo, e o resto já nós sabemos. Em Fátima come-se bem.

Dizem os inteligentes que o milagre não consistiu nos efeitos especiais mas sim na convocatória, a Senhora tinha anunciado um sinal e ele veio, enfim.

Que Deus ou uma figura a pairar sobre uma oliveira nos valha é indiferente, desde que haja alguém a quem pedir auxílio.

Nós, os que não acreditamos, sabemos apenas que é sábado e que há ainda e sempre um muro de frio e de chuva e de vento pela frente, neste ano, no próximo e no a seguir.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Quatro de Março.

A doença pode dominar uma vida, ou melhor, podia. Hoje é diferente. A doença hoje é uma coisa rápida. Ele há antibióticos, ele há medicamentos que se não resolvem anulam os sintomas e reduzem a doença ao silêncio. Ou então não há solução outra que não acabar o jogo. Ou melhor, o jogo acabar connosco. Antigamente não era assim. A doença podia acompanhar os dias e estes serem muitos. Antigamente as soluções eram poucas e outras. Como o Caramulo. Que tem a maior das paisagens, toda a Beira Alta. E toda a Beira Alta então não era demais.




Nem sempre a vista da Beira Alta do Caramulo chega até à Estrela. Que, estando com neve, se verá assim.




Saint-Exupéry desenharia melhor.