Nunca mais chega, nunca mais. Até que, nem cinquenta minutos passados, reparas, e é o fim que chega. Agora acabou, pensas. E recebes a verdade como um soco.
sábado, 30 de janeiro de 2016
domingo, 24 de janeiro de 2016
sábado, 23 de janeiro de 2016
Vinte e Três de Janeiro.
"...não tinha nem pés nem cabeça!".
A quinta da Gruta é em Castêlo da Maia. Não sei o que era antes. Tem as mais bonitas camélias à entrada, defendidas por um Smart ali estacionado e um seguranca da Chiron. Depois há uma pérgula sob a qual desce uma escada que dá acesso a uma escola ambiental, uma horta comunitária, duas quadras de ténis, uma piscina, uma cafetaria, um parque infantil e um cercado onde há ovelhas, cabras, patos e gansos. Não tem pés nem cabeça que não se possa passear por entre as pequenas hortas. Nem ter ali dois gansos, dois pobres gansos que, animal territorial como poucos, grasnam ameaçadoramente a todo e qualquer maiato que se aproxime a menos de dez metros. O segurança da Chiron quase se ria ao vigiar a nossa retirada. Fiquei a gostar da quinta da Gruta porque, vendo bem, tem várias coisas sem pés nem cabeça. E tem as camélias mais bonitas que eu vi em anos.
As coisas sem pés nem cabeça têm preenchido os meus já largos anos. Os pés, os meus, assimétricos, são acessórios não demasiado essenciais. A janela à minha direita permite-me todo o andar que quero. E a cabeça? Highly overrated, if you ask me. Vickie, o pequeno viking, pensava com o nariz. Coisas sem pés nem cabeça, venham, venham! Fico à vossa espera.
Atentamente.
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
Dezanove de Janeiro.
Não sei porque os tenho em disposição diferente. A música – os cêdês – estão como que em cascata. Os livros estão ora em caixotes ao alto ora em escada. Disseram-me para manter as paredes livres. Quem me deu essa instrução já cá não está. Mas aceito as instruções que fazem sentido. Numa casa com estas janelas porque não manter as paredes abertas? Os livros são e a música. O tempo voa. Em branco as minhas paredes. Mas viver é acrescentar.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
domingo, 17 de janeiro de 2016
Dezassete de Janeiro.
Janeiro é o mês mais longo do ano. Em Portugal não acontecem os Reis, esse prolongar da festa de que os espanhóis se socorrem para entrar no mês já com ele um pouco andado. Janeiro é o mês mais longo do ano. E não me queixo, este ano recebo a 26, não é disso que me queixo. Parece-me sim sempre e a cada dia que custa a andar, que só em Fevereiro haverá tempo, haverá dias, haverá coisas. Em Janeiro não. Janeiro diz-me para esperar. Janeiro é como um túnel longo que demora a encontrar o fim. Saio de casa e já é dia, inútil dia. Volto a casa e já a noite leva horas de avanço. Assim não dá. Quando não trabalho e a noite é em casa custa a acontecer o sono reparador. Pois ele devia reparar o quê? Nada há que se tenha estragado - nem para o bem, nem para o mal. Adormeço como acordei, em hiato.
Espero bem que este mês não se transforme em ano.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Oito de Janeiro.
Antigamente o turismo era um acontecimento por acontecer em Portugal. Se procurar encontrarei ainda em Ovar um guia hoteleiro de 1957. Casados os meus pais em 61, nascido eu no 64, até para a minha tão jovem idade que tinha quando devorei o dito guia de hotéis e pensões se tornou óbvio que as minhas contas não faziam mais do que uma abordagem histórica da hotelaria e do pensionismo em Portugal. Embora sem o correcto enunciado, assumo que devo ter concluido, provavelmente pouco antes do vinte e cinco de Abril, que as povoações de Portugal com mais capacidade de camas para alojamento turístico eram, por esta ordem, Lisboa, Porto e a Curia, em 57, repito. A partir daqui entre o Luso, o Vidago e o Gerês a minha memória já vacila. Os números de Cascais e do Estoril eram ainda moderados, o Algarve era um sonho por acontecer. Dentro da minha solidão matemática sediada na rua Heliodoro Salgado s/n - não há rua mais central em Ovar, demasiado central eu diria - as minhas variações de pontuação podiam também variar consoante as estrelas dos hotéis e das pensões - no Gerês a hotelaria era de média ou baixa qualidade, Vidago tinha o Palace mas não muito mais, a Curia tinha o das Termas, o do Parque, o Palácio. E, porém, todos estes hotéis em 57 tinham um número razoável de camas sem wc privativo, o que já então me surpreendia e atrapalhava. Desconhecia eu então que parte importante dessas camas seriam ora para os portugueses de menos recursos mas que igualmente precisavam ou julgavam precisar da sua cura termal, e que outros quartos seriam pura e simplesmente para a criadagem.
Há uns trinta e cinco anos o Miguel Esteves Cardoso disse-me que o Palace Hotel da Curia era o hotel mais bonito de Portugal. Eu entendo a exclusão do Buçaco que, aliás, fica a poucos quilómetros. O Buçaco é uma espécie da Palácio da Pena B que virou hotel. E Portugal não pode ser apenas neo-"manuelzinho". E o Buçaco é apenas uma dúzia de quartos ou duas dúzias. O Palace da Curia, como um paquete branco estacionado no meio de um jardim à entrada da Curia é um acontecimento. Tem uma carta cenográfica mais bonita, menos rectangular do que Vidago. Dentro não desilude mesmo nada e, recuperado, não foi renovado - que quando acontece sempre equivale a não destruido mas quase. Por fora um manto que já não era de cinza mas de negro não permitiu perguntar pela piscina exterior ou pela quadra de ténis que tão boas fotografias tinham fornecido às paredes do hall-bar.
A Curia, o Luso e o Buçaco são rodeados pelo núcleo vinhateiro mais espumante do País, embora quer o Murganheira quer o Raposeira sejam do Douro. Terras com palácios pedem espumante. Uma estrada que como Nacional era a número um inventou outra iguaria, o leitão, e a razão maior hoje em dia para a popularidade da Bairrada. Pouco acima fica Sangalhos, terra das bicicletas e das motorizadas. E do Alves Barbosa.
Lembrar pode ser uma longa auto-estrada, dependendo dos convivas. Uma longa auto-estrada por aqui nunca é assim tanto. Num continente mais ocidental implicaria mudança de estado - do Ohio para o Kentucky, por exemplo. Mas uma auto-estrada pode levar a uma longa conversa. Portanto, como se por um túnel cinzento seguia, ele era o asfalto, ele era a chuva, ele era o céu invisível oculto pelas nuvens carregadas. O que fazer senão lembrar.
Não me lembrei de contar a história da chanfana de cabrito nem aquela outra do... Sim, onde escrevi lembrar podia ler-se conversar.
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Cinco de Janeiro.
A realidade não é a minha cura. A realidade é como a água da chuva. E não pára de chover. Queremos ser parede, queremos ser suporte. A água escorre e infiltra, a água estraga. Queremos dar tecto. Mas, mais que tudo, queremos ter um tecto. Um dia o tecto desaba. E a culpa é da água. Uma e outra vez chove. Porque todos os anos há inverno. E realidade todos os dias. Coisas. Que são como pequenos terroristas infiltrados e que destroem as ligações, destroem a argamassa. Isolam o tijolo. Desnudam a parede da casa. Que já não é casa. É uma ilusão. Ou pior, não é nem uma casa nem uma ilusão. A realidade. Números. Condições. Veículos de porte médio a descarregar assunto antigo. E nada é novo, não há novidade. A realidade é como aquele vinho que abres e não tens bem a certeza se o sabor será tão bom quanto o anunciado, porque na realidade NÃO PERCEBES NADA DE VINHOS. E menos ainda da realidade.
"A realidade / é a minha cura"? Enganaste-me bem, ó poeta!
"A realidade / é a minha cura"? Enganaste-me bem, ó poeta!
domingo, 3 de janeiro de 2016
A Liliana.
Apercebi-me agora que a Liliana morreu.
Foi minha interna geral. E utilizo o termo "minha" porque esse minha, esse tempo, esse lembrar de uma menina boa e brilhante que buscava o seu caminho, não se vai embora. Ela foi minha, a Liliana. Ali, na velha Medicina 3, que se calhar já nem se chamava assim mas era ainda assim que funcionava. E nunca mais nos separámos. Quando, muito de vez em quando, nos víamos, era um silencioso acontecimento. A Liliana era qualquer coisa. E, na realidade, qualquer coisa é-o muito pouca gente. Por isso é que eu não entendo.
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