quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Vinte e Nove de Setembro.

"Todos temos um pouco e eu trabalhos tenho muitos!": seria assim que me disse naquela manhã quando eu saia de trabalhar e não quis o café que lhe ofereci? Reencontrei-a dois dias depois e já não se lembrava do dito, provérbio feito e desfeito no momento, os trabalhos esses, eu sei, sempre presentes, oferecidos sem papel de embrulho para disfarçar. Notei-a um pouco mais cheia de cara, embora bonita, claro, como discutir. Os seus anos são os meus, give or take a few. A voz um cristal. A sua mãe uma doente minha e uma mulher perdida nos anos que trabalhou e nas doenças que procura ter, nem sempre com sucesso.

Permita-me que lhe pergunte: que foi feito dos seus sapatos vermelhos?

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Vinte e Sete de Setembro.

Ontem saí da consulta satisfeito. Havia duas razões para assim sair. 

Precisava e fui fazer pequenas compras. Uma tesoura precisava.  Comprei duas. Posso agora optar por cortar mais, cortar menos, mais forte, mais suave. Espetar mais fundo ou menos se também necessário for. Pilhas para os comandos dos estores. Merdas que recebemos quando alugamos, estes estores que me rodeiam decidem os seus tempos de subir, de descer. As pilhas são chatas na forma e chatas de encontrar: não as encontrei. E sementes das mais imperfeitas flores. Porque é tempo de voltar a semear.

As duas razões? A boa: consultei bem, aqui e ali a diferença foi feita. A óptima: hoje não trabalho.

domingo, 18 de setembro de 2016

Dezoito de Setembro.

Estava bom e fazia sol. O tempo ia mudar, sabíamos, mas hoje ainda não. E era o Alvão, o planalto que divide o Norte de Portugal em dois. 

Parámos para almoçar na estação de serviço da auto-estrada. À direita havia ao longe muito terreno ardido. Fomos atendidos num pequeno restaurante e bem, e bem comemos. O destino era Nadir Afonso e comprar vermelhos narizes de palhaço. Para mim também vou comprar, nunca o tive tão claro.
Comíamos. Ali no Alvão sentia-me como que num intervalo. Como foi, como vai ser, como poderia ter sido. A ondulação do terreno somada dava um resultado neutro para norte, para sul... 

Na minha frente, do outro lado do vidro, um jovem pinheiro atirava-se para o Sol, inteiro. Que importava crescer ali no espaço verde dominado de uma estação de serviço. Atirava-se. Um jovem pinheiro não pensa, pensará um mais velho? E, naquele momento, quis muito ser aquele jovem pinheiro.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Seis de Setembro.


Abro a porta:
Ao lado um banco de granito.
Sento-me.
 
Amanhã há mais.
 
#
 
Chama-se uma sombra.
Sei como se faz.
 
#
 
A idade um açaimo.
 
#
 
No fundo uma cama, via.
 
#
 
Um desencontro extenso, era.
 
#
 
Desliga-me esta máquina.
 
#
 
Irei ceder ao ínvio folclore?
 
#
 
E para ti uma sanguínea.
 
#
 
Élitros convinham.
 
#
 
O caminho para o silêncio procuro.
Gostava, por ex., de saber
Rumorejar.
Ou de, silente e de bicicleta,
Desaparecer rumo ao ocaso.
 
#
 
Os anos berbequins.
 
#
 
A mais tardia hora foi,
"Agora que penso",
Antes.
 
#
 
Na ponte passam pessoas.
Para umas terá valido
A pena. As outras nada
Dizem ou sou eu que não
Ouço.          Ouço
Obras...
 
#
 
Uma igreja vazia, ergo perfeita.
 
#
 
O uníssono às vezes acontece,
Mas não exageremos.
 
#
 
Idem o simultâneo.
 
#
 
E foi quantas vezes?
Esta.
 
#
 
A expressão determinada.
A comparação determinando.
 
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Era uma película branca: raspar
Ou escrever por cima?
Decidir: uma porta
Giratória.
 
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Era uma loja inconveniente mas
Apenas objecto de
Pequenos furtos.
 
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A bolsa e a vida não cabiam naquela porta.
E ele então escolheu.
 
#
 
Conclama, conclama.
Isto não muda!
 
#
 
Possa poder tudo o que pode.
 
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Apagar os fogos com infusas será a solução?
 
#
 
A fome fonte de enganos? Não,
Ciência exacta!
 
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Ausculto o coração uma e outra vez:
Nenhuma opinião obtenho.
 
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A rua não era íngreme, portanto...
 
#
 
Espancamento. Redução. Isso.
 
#
 
A memória salva-me um pouco.
Como: uma ameaça nunca tem
Perdão.
 
#
 
O entretecido é que nos
Trama.
 
#
 
O amigo mais pontual devia
Receber um prémio.
 
#
 
Diário de uma exclusão, isto.
 
#
 
Mãos sobrevivas.
 
#
 
Como ao betão pré-esforçado
Podiam ter-nos avisado.
 
#
 
A casa na árvore tem uma janela que está
Sempre aberta para todas as coisas boas.
 
#
 
Quando um poema diz "homem" cada dois
Parágrafos começo logo a ficar nervoso:
Lá vem a "A Internacional"a seguir!
 
#
 
E é isto.

domingo, 4 de setembro de 2016

Quatro de Setembro.


Riso cristalino? Não, corrijes,
Acristalado. E ris.
Acastelado, corrijo.
O teu rir é a tua defesa.

#

Controlas o momento em
Que, tocado pelo café com
Leite, o quadrado de açúcar
Começa a mudar de cor.
Não controlas a velocidade
A que ele muda.

#

Vai embora.
Volta sempre.

#

Estado de graça:
Expressão subtil.

#

Há trinta
Anos, escrevia
Que " terias
Deixado de ouvir."

Antecipação
Científica.

#

Uma máscara grega: tudo o
Que ficou do ano passado.

Mas qual?

#

Chamam de comum ao
Mais conhecido
Dos guarda-rios.
Ele vinga-se,
Polígamo.
E os rios não
Guarda, antes
Rouba, em
Voo picado
Celebratório.

#

A raiz quadrada
Não augura bom
Destino à
Planta.

#

Existe malícia no querer a carne mal
Passada! Define o tempo
Que se passa bem, por isso falar
De abandono da carne não colhe.
E escolhe o cliente sempre "médio!".
E a vida toda leva com a carne
Morna.

#

Vedor, descubro apenas.
Se fosse canalizador também
Ganhava mais dinheiro.

#

Tonto, índio fiel e indiferente
Ao insulto do nome.
Testemunha de defesa no
Meu caso, long time ago,
Escrevi. Não me lembro do
Que escrevi. Lembro-me porque
Escrevi. Podia
A menos ter sido em papel
Colorido.

#

Um voo não planeado
Precisa de plano
De voo?

#

Uma linha a
Lei dos dias,
Para que
Recta
Um dia de
Juízo.

#

Não pensaste
Que o teu
Desemprego
Seria, teu
Paquete, o
Meu.

#

Ver sem olhar está previsto começar
Para o ano que vem.

#

Ser profeta é apenas saber pagar
A defesa. Ajuda ter lido uns livros,
Mas pouco.

#

Na companhia de caçadores
Mas sem quereres fazer
Mal a uma mosca.

#

Se fores suficientemente magro, ou
Pouco, pode ser que escapes à
Bala tracejante.

#

Não percebo para quê o piquete
De greve; eu, na realidade,
Não estou aqui.

#

A tarde que
Entretece é
Já um tempo
Perdido.
Obedece o
Corpo não
Obedece o
Cão pensamento:
A noite vem
E vou ter de o levar a passear.

#

E nada nos prepara para a
Crispação.

#

Olha, uma moeda!
Apanhes ou não a apanhes,
Moeda de troca.