sábado, 30 de abril de 2016

Trinta de Abril.

Voltei ao silêncio. Que não à ausência de ruído. Ainda agora um camionista me disse bom--dia, directamente da vci.
Morei já em tantas casas, tantas. Morar é ter um registo codificado para onde as cartas vão.  Uma rua e um número - ' de polícia' - um andar, se é assim, um lado. E um código, postal. Mas... que cartas?

Levando Cristo a Cruz pelas ruas de Jerusalém pediu ajuda a um sapateiro que lha negou. Amaldiçoado, assim nasceu o 'judeu errante', pois a maldição foi 'nunca pararás'. Esta lenda 'humaniza' o Cristo ao fazer dele, no suplício da Via Sacra, alguém que não perdoa. A etimologia de 'errante' é a mesma de 'erro'. O caminho do errante é uma eterna tentativa de correcçäo. Correcto aquele que corrige. Erra (caminha e caminha) aquele que vive a tentar corrigir.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Vinte e Seis de Abril.

Lembro-me de uma conhecida de ocasião me descrever Marco de Canavezes como sendo 'verde, verde, tudo verde'.
Ontem foi o dia da festa. Mas o que vem depois é que importa. Ir até ao Marco é fácil. Embora não fosse o meu objectivo do dia decidi voltar a espreitar a Igreja de Santa Maria, obra de Siza Vieira, até para confirmar que lhe conhecia bem o caminho. Foi fácil encontrá-la. Marco de Canavezes é uma pequena cidade que se desenvolve numa encosta que vê do outro lado a Serra da Aboboreira. Vira as costas ao Rio Tãmega, poderoso afluente do Douro. Junto ao Tãmega ficam as velhas Caldas de Canavezes, em renovação. Portanto, esta terra começou junto ao grande rioo mas depois terá preferido a segurança de uma encosta. O Marco é cidade, bonita ou feia - escolham - em parte por culpa de um autarca que o/a governou 22 anos. A Igreja de Santa Maria é, já disse, fácil de encontrar - não percebo como há três anos passei três quartos de hora à sua procura. Está rodeada pela típica construção cívil apressada portuguesa dos anos 80-90. Não sei se Siza contemplou esta condicionante. Parece que sim. É engraçado o quanto se discutiu o entorno da Casa da Música no Porto, sendo que esta, pela volumetria, sobreviveria bem praticamente a qualquer merda que lhe pusessem à volta.
Mas a verdade é que o Marco tem uma igreja desenhada por um Pritzker e, já agora, lindíssima. Desta vez não entrei. O interior, avanço, é um deslumbramento. O exterior... tem problemas de humidade, reboco, etc. Siza não terá contado com o quanto chove no Marco? Há muitos anos visitei a Batalha e a degradação do revestimento centenário do mosteiro causou-me impressão. Tal a Igreja de Santa Maria, com a diferença de ter apenas vinte anos de construída. Paradoxalmente os edifícios que a rodeiam - os tais de péssima qualidade - parecem melhor conservados. E a serra, claro, essa não tem qualquer imperfeição. As casas de má qualidade criaram uma cidade. Onde a Igreja de Santa Maria parece estar a mais.

E pronto, o meu 'dia depois da festa' fez-me pensar nestes 42 anos que passaram, uma estranha mistura de Avelino Ferreira Torres e de Siza Vieira. Talvez a solução para este estranho divórcio no coração das gentes esteja algures por aí no virar de uma esquina... que ainda não se virou.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Vinte e Cinco de Abril.

Hoje é o dia certo para não falar de hoje mas de ontem.
Ontem fomos jantar a Ovar. Até aí nada de anormal. Derivei para o Carregal, passei na Cova do Frade na antiga casa dos meus avós paternos, virei à direita no Alto do Saboga e outra vez à direita na casa dos Pescadores. Dá-me um certo prazer a enumeração sucessiva dos lugares e das coisas. Quando somos pequenos o nosso mapa faz-se deles, só depois virão as terras, as cidades, os países. A rua da casa dos Pescadores termina num ziguezague que desce para uma zona esquecida de Ovar onde estão as traseiras de alguns armazéns e fábricas, nomeadamente da antiga Socotil, a fábrica que fazia figuração no filme 'Mudar de Vida' do Paulo Rocha. Avancei um pouco para além do fim do asfalto e estacionei. Se não me engano a Socotil foi construída em terrenos do meu avô. O caminho passou rapidamente a ser de areia: Ovar tem debaixo de si uma praia. À direita escalámos um pouco e entrámos num terreno mal delimitado mas que um espreitar de verde ao fundo confirmava: o pinhal do meu avô começava ali. Que restava dele? Quase nada. Sendo um terreno declarado como 'agrícola' quase no meio de uma cidade, é praticamente 'invendável'. Sendo assim vendeu-se a lenha, mais eucalipto que pinho, sempre era dinheiro.
Caminhávamos em direcção ao verde, aqui e ali jovens eucaliptos e austrálias. No fim uma pequena descida e uma barreira espessa de austrálias marca a transição para o terreno agrícola, onde me lembro de muito milho, e do meu tio António de enxada a dirigir os regos de rega. Ontem não, só um mar de pasto verde até à casa-mãe, até ao poço, até à vacaria, à pocilga. Um ondulado marca onde antes havia caminhos, videiras. Há um, dois anos, eu e o meu pai visitámos a casa, a parte mais antiga, o piso de baixo, com as paredes corroídas. Fiquei então com a impressão de que a grande casa não iria durar muito mais.
Bom, estava a ficar tarde para o jantar marcado. Engraçado como o pequeno ressalto em que o enxame de austrálias prende me parecia grande quando menino. E as árvores, os pinheiros e os eucaliptos, que altos eram e como faziam grandes os homens que de mãos nos bolsos as mediam com o olhar, o meu avô, o meu pai, os meus tios. Hoje grande serei eu mas não restam árvores para medir com os olhos e me darem paz, paz que eu possa levar de volta, as mãos nos bolsos.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Dezoito de Abril.

Jantei num centro comercial onde um negro passeava com um chapéu de palha e, por cima deste, uns óculos de sol. Não sei se é correcto logo dizer assim 'um negro'. Talvez pudesse ter começado com 'um louco' ou, melhor ainda, com 'um optimista'. De qualquer das maneiras a sua figura expansiva tomava posse da praça da alimentação.
Por falar em alimentação, precisei de ir comprar alguma à Bertrand, mais concretamente um livro, 'O Bosque', de João Miguel Fernandes Jorge. É uma espécie de diário, já o tinha folheado e dele tirei a ideia para este blogue. Hoje comprei-o. Vai adormecer-me, o que não está fácil. Aqui não há bosque nenhum, vejo tudo bem e claramente entendo. Folheei ainda as obras completas de António Gedeão, procurando o famoso poema do fecho éclair sobre el-rei D.Filipe II, que tinha tudo excepto. Whatever happened ao conhecimento automático antigo de que havia um António Gedeão e era poeta? O Sr.Andrade nunca tinha ouvido falar dele, uma vida SÓ de trabalho para agora gozar o bem bom mas, ai, completamente paralisado do lado direito. Sem o que lhe responder lembrei-me do tal poema, o Sr.Andrade dizia que de mal acontecera-lhe 'tudo'. E a mim de mal hoje não me aconteceu nada!

domingo, 10 de abril de 2016

Dez de Abril.

"Morrer mas devagar!" Diz a história que assim se despediu da vida el-rei D. Sebastião e com ele o seu reino. Esta frase tem-me preenchido os dias. Estou a ler a biografia de D. Sebastião escrita por Maria Augusta Lima Cruz.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Quatro de Abril.

(para a Vera)

'Material obtido por trituração de rochas e utilizado na preparação de betões e na pavimentação de estradas'. O betão é a base. Gosto de pensar que foi pre-esforçado, que não me dá apoio sem experiência prévia. Pre-esforçado é giro. E é preciso o tal do pavimento para o caminho. Enfim, eu não sou esquisito mas, como já disse, viver é acrescentar. Daí a brita. No que diz respeito à tal de Britta, isso é uma outra mas velha história.