domingo, 27 de dezembro de 2015

27 de Dezembro.

Não tenho boas lembranças de nenhum Natal. Com a excepção, espero que verdadeira, de uma vez, ao sair de casa dos meus avós para voltar a casa, criança, a Estrada do Furadouro estar debruada com gelo e neve. Foi há tantos anos que já nem sei se aconteceu mesmo ou se foi apenas um desejo meu tão forte que nos meus sonhos se transformou em realidade.

Ontem estavam quinze graus de temperatura no cimo da Serra da Freita. Assim não pode ser. Não sei porque nasci em Ovar. Sou uma espécie de Júlio Dinis que, como sabemos chamava-se Joaquim Guilherme. Refugiado em Ovar por uma doença que ele transportava consigo, pedia a Deus uma montanha, que em Ovar não há. Arouca, por ex., teria sido uma opção mais interessante. Uma terra que dá o nome a uma raça de bois não será de desprezar. E que vende os seus doces manjares não na rua principal mas à saída, num lugar que poeticamente se chama "O Burgo". Estou a mentir, claro, outro dia farei a minha declaração de fidelidade eterna à minha terra, hoje não quero. Acontece que decidi ontem subir à Serra da Freita e tais temperaturas, pareceu-me, faltavam ao respeito a tão bonito altiplano. Altiplano este que fica a 800m de altura e de onde se vê a Ria e o Mar Oceano. A Frecha da Mizarela estava bonita como sempre, um dia deixarei de lhe faltar ao respeito e hei-de me aproximar dela a pé. Ao longe, do outro lado da garganta funda, a aldeia de Castanheira e o rectângulo descarnado onde aparecem delimitadas para o turista ver as pedras parideiras. Em Albergaria da Serra, que antes se chamava das Cabras, tivemos que rodear uma maciça vaca arouquesa, cornos do tamanho de braços, e que literalmente estava no meio do caminho a criar como que uma rotunda. Suponho que se não tivesse existido respeito pelo correcto sentido do trânsito o animal ter-me-ia atacado. 

Depois lanchámos em Arouca. À porta do Mosteiro de Arouca dois restos de árvores centenárias - oliveiras? - estavam disfarçados de cogumelos dos Schtroumpfs. 
Pensando bem, fico vareiro.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A montanha mesmo muito grande.

Era muito alta e extensa. Podia dizer-se que ocupava o horizonte. Da esquerda para a direita, da direita para a esquerda. Ainda o caminho não começara a empinar mais eis que ela ali estava, a montanha. Não podia ignorá-la, dada a limpidez do dia, a limpidez da tarde. Era daqueles dias de inverno decididos e correctos que nos oferecem frio e céu azul em quantidades iguais. E uma janela de dia que, se bem aproveitada, pode acrescentar boas surpresas. Caminhava por uma ladeira suave e protegida. Enumerava os dias para trás, lembrava escassas surpresas, as boas. De mau nada o surpreendera. A idade retira-nos a distracção, ensina-nos a prudência, que é apenas o medo rodeado pelos anos. A montanha era mesmo muito grande. E ele queria subi-la. Não sei porque sempre nos refugiamos no pretérito imperfeito - digo, ele quer subi-la. O solstício de inverno já foi, é agora! Mas tudo o que ele pensava ou lembrava eram coisas que as curvas da montanha lhe pediam, ordenavam. Porque a montanha hoje por hoje dominava-lhe o seu pensar. Para lá da montanha o quê? Não sabia. O telemóvel não tinha rede, tal este caminhar. Não podia consultar o GoogleMaps ou a Wikipedia. Cantarolava uma canção mas estava zangado com ela, que disparate, a canção de fecho dos jogos olímpicos de Barcelona, "Amigos para siempre!", que estopada! A música não ia embora, como uma ameaça. A ladeira começava a empinar. O sol mantinha-se por agora, como a canção. Pensou em trauteá-la alto: "Ao menos para que não digam que há distanciamento intelectual!"