segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Dezassete de Outubro.

"Tem alojamento para mim, para estes miúdos e para o cão? - perguntou ele.
- Recebo pessoas, mas não animais - respondeu o estalajadeiro.
- Então não fica cá nem o homem nem a sua comitiva - tornou Moutier, voltando a por-se a caminho.
O estalajadeiro viu-o afastar-se com desgosto. Pensou que tinha sido tolice não receber um hóspede, só porque ele não se queria separar das crianças e do cão. Talvez até fosse um hóspede que pagasse bem.
- Venha cá, ó senhor! - gritou ele, correndo atrás de Moutier.
- Que é que quer? - perguntou este, voltando-se.
- Afinal sempre posso dar-lhe alojamento.
- Guarde-o para si. Já não preciso.
- Olhe que não encontra por aqui melhor hospedaria.
- Pois que aproveite aos que ficarem na sua casa.
- O senhor não vai fazer-me a desfeita de recusar o alojamento que lhe ofereço.
- Vocemecê também mo recusou quando lho pedi.
- Desculpe, mas não tinha reparado em quem o senhor era. Falei depressa demais.
- Eu também não tinha reparado em vocemecê, mas agora, que o vejo melhor, agradeço-lhe ter falado depressa demais, e vou procurar alojamento noutro sítio."

Condessa de Ségur, A Pousada do Anjo da Guarda.

domingo, 16 de outubro de 2016

Dezasseis de Outubro.

"Here's my life, why not, it is one, if you like, if you must, I don't say no, this evening. There has to be one, it seems, once there is speech, no need of a story, a story is not compulsory,  just a life, that's the mistake I made, one of the mistakes, to have wanted a story for myself, whereas life alone is enough."
 
SB

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Seis de Outubro.

O caminho está interrompido na praceta. Num Golf há uma longa despedida. 
Um casal em fatos de treino vem passear o cão, passeia o cão, acaba de passear o cão. 
São dois prédios como dois rochedos num mar. Da porta de um deles sai uma mulher com dois sacos. Atravessa a praceta, os aros dos óculos reluzem com a iluminação da rua, entra no outro edifício. Caminhou sobre as águas? 
Chega um Opel Corsa e inicia-se uma espera por tempo indeterminado. 
Amigas trazem uma amiga num Toyota. A praceta é como uma placa giratória e elas não podem terminar a conversa do jantar: adeus, adeus! 
O Golf manobra para deixar passar. Vejo que ela tem compridos e pacientes os cabelos.

É quase certo que amanhã será dia. 
Mas outro?

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Cinco de Outubro.

"Catarina, ensina-me a remover o cálculo."



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"Tocar em tudo sem razão aparente."

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Quatro de Outubro.

Onde estão os meus diários de juventude? Por onde andam? Escritos com uma letra difícil de ler, letra difícil e que cada vez mais o foi até hoje quando, felizmente já não escrevo, só percuto teclas de um teclado de computador. Escrevi então coisas que não mais esqueci. Escrevi, por ex., que o hóquei em patins era um desporto muito mais interessante de ver do que o futebol - correcção devida ao facto de jogar mal futebol (à defesa, portanto). Escrevi como se escrevesse ao meu companheiro de carteira da primeira classe, o Tó: "Querido Tó" - quando a expressão "querido" ainda não tinha apensa uma orientação sexual, apenas a pena de o Tó Elvas já não pertencer ao número dos vivos, vítima de uma daquelas estúpidas doenças que às vezes escolhem gente jovem. Lembro-me dele alto, muito magro, pelas ruas de Ovar, como se fosse cair para o chão. Se calhar não era assim mas é a memória que eu guardo. Durou pouco, assim se costuma dizer e fecha-se um parêntesis cruel. 
Escrevi também sobre o "ter piada". E, então como hoje, pre-adolescente, já me apercebia do doce que é ter a dita piada, e do amargo que é os olhos alheios fecharem-se à leitura do livro de onde a piada surge. E porque não há livros abertos, hoje eu sei. O Tó Elvas tinha montes de piada, um cabelo escorrido, comprido, uma voz rebelde, de catraio das ruas de Ovar. Morava no Outeiro-Mota. A irmã Olívia corria pela ADO e dava umas abadas à Rosa Mota que corria pelo FCFoz. A Olívia parecia-me uma convencida - naquele tempo eu nem pensava no facto de ela ser uma adolescente. Casou e parou de correr, assim. E perdeu a  piada que nunca tinha tido. Enfim.

Entendam, eu até gosto de ter piada. Mas eu queria mesmo era ter um Maserati...