terça-feira, 31 de maio de 2016

Trinta e Um de Maio

Vi ontem em consulta o Sr. Pereira. É como eu um fervoroso amante do ciclismo. Viúvo, despachado. Não se lembrava de me ter contado do seu último internamento, Agosto de 2015. Não se lembrava de me ter contado ter-se devido esse internamento a determinada medicação, não o cinquenta mas o cem, que ele tomara, porque ele há umas romenas naquela rua está a ver o Sr. Doutor ali por trás de, e eleas metiam-se connosco e o cinquenta já não funcionava e o meu médico de família disse pronto!, homem, vá lá, tente o cem, uma vez não são vezes, e nunca a palavra "Homem" terá sido tão pesada, foste tu que o viste e o internaste, Alexandra Baptista, mas ele a ti nada contou. Não se lembrava nem de uma coisa nem de outra mas o que mais me preocupou foi não termos falado de ciclismo. Não se terá lembrado! 
Será o princípio do fim para o Sr. Pereira? 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

(quase) Vinte e Quatro de Maio.

Se formos pela definição estrita, o meu pai já não tem sobrancelhas. Estas são habitualmente descritas como um desenho harmonioso de uma população pilosa que sublinha mas por cima os olhos e o que eles mais fazem, que é olhar. Essa harmonia é quase sempre domesticada, redesenhada, na mulher, acrescentando ao artifício que - quase sempre - define o olhar feminino. No meu pai essa harmonia já não está, desapareceu, foi-se embora. Porquê? O meu pai quando olha reconhece e cumprimenta, sem mais. Tudo o que era para dizer por ele está assim dito. O que haveria mais de especial para ele dizer? Especial é toda a vida e ele já comprou todos os volumes da mesma e dispensa leitura adicional. O meu pai hoje por hoje só faz releituras. 

Invejo-o, às vezes. Mas não desespero. Agora que reparo, estão cada vez mais desorganizadas  as minhas tão desanimadas sobrancelhas.


Vinte e Três de Maio.


Acho que é desde sempre que eu sei que existe um rio Alfusqueiro e que ele é o afluente mais importante do rio Águeda, rio que por sua vez duplica a água do rio Vouga quando nele termina.

O leste do concelho de Águeda é eucalipto's land. Começamos a descer e, numa curva da estrada aparece uma ponte e, debaixo, o rio Alfusqueiro. "Olá!", disse-me ele, "Estava a ver que nunca mais aparecias!".
Logo após a ponte, à esquerda, há uma zona arborizada onde estaciona um barraco, o "Amazing Bar"; onde fomos pedir dois gelados. Que não, ainda não tinham vindo, a abertura do "Amazing Bar" para a época do bom tempo tinha sido naquele dia, estava ali a rapariga mais meia dúzia de amigos, a música a sair da janela aberta de um carro, para que o fim-de-semana português ficasse completo. "Mas voltem, para a próxima prometo que tenho gelados!". E sorria, a rapariga do "Amazing Bar" que fica junto a um rio que cria ali um breve intervalo nos eucaliptos sem fim.

E é com tão pouco que seguimos em frente.






domingo, 15 de maio de 2016

Catorze de Maio.

Ontem foi Treze de Maio. E sexta-feira. Grande notícia a incerteza sobre a vinda do Papa Francisco ao Santuário, para o ano que vem. Outrossim não é revelado o lucro anual do Santuário. Que - o milagre que subjaz - para o ano vai ser Centenário. Mas não há milagres. E ontem ficou mais uma vez ratificado.
A D.Rosa tem 75 anos. Mulher de um homem só, cinquenta anos. Casado ele mas não com ela até há pouco tempo. Morreu-lhe a esposa, mudou-se para a casa da D.Rosa. Mais velho uns anos. "O amor é cego e foi para ali que eu virei", "mas estou cansada, ele a cantar de galaró e eu tão habituada a estar na minha casa sozinha!". Se ele repetir ela põe-no no olho da rua. Mulher de um homem só, mas não é parva.
O Sr. Paiva pediu-me ajuda para uma coisa: religioso, reza as suas orações todas as noites. Duas, mais precisamente. A primeira sai-lhe muito bem. Quer arrancar com a segunda e não se lembra, hesita, engana-se nas palavras. Corrigi-lhe a dose da sertralina matinal. Conversei com ele um pouco sobre a fisiopatologia da memória e ele pareceu-me que entendia.
Em Bertiandos está o Pai de todos os solares minhotos, o Solar de Bertiandos. A torre central é quinhentista e a esta estão acoplados não um mas dois solares, pois a família numa determinada fase era constituída por dois ramos desavindos, no séc. XVIII, época da edificação das duas semi-casas. Que se equilibram uma à outra, a torre no meio do xadrez como âncora.
A frente do Solar é o postal de muitos conhecido. Rodeei por poente e cheguei a um portão de serviço que estava amplamente aberto. Entrei um pouco. As várias dependências de serventia para a casa agrícola não destoavam, antes completavam o conjunto. E assim fiquei a saber que o Solar de Bertiandos não é só uma fachada mas um todo coerente. Assim quem mais?