sábado, 24 de dezembro de 2016

Vinte e Quatro de Dezembro.



"Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado...
Olho em redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.

Tanto tempo perdido...
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campos de flores
E silvas...

Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos.
Adrede."

O poema acima chama-se "Linha de Rumo". Escreveu-o Ruy Cinatti no livro seu com o feliz título "O Livro do Nómada Meu Amigo". Demorei anos a buscar o significado da palavra "adrede", que desconhecia. Pareceu-me evidente que ao ser escolhida para terminar um poema com o título "Linha de Rumo" seria interessante que implicasse um paradoxo, isto é, a ausência do mesmo rumo. Isto tinha também algo a ver com o meu conhecimento, superficial, da vida pessoal de Cinatti, talvez o nómada português mais interessante desde a odisseia de Fernão Mendes Pinto. Superficial porque a procura de Cinatti foi sempre dirigida, afinal. E ele sim que NUNCA abandonou Timor, para dar apenas o maior exemplo. Sabia portanto o que queria, para onde ia, a quem devia ser leal.

Adrede: (advérbio) de propósito, expressamente, propositadamente.

Não paro de aprender com Ruy Cinatti. Afinal...

PS.: por alguma razão um dos escritores de que mais gosto chama-se Bruce Chatwin.

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